Breve texto sobre a "escrita".
- Edicarla Correia de Sá

- 16 de fev.
- 4 min de leitura
"Não gosto de conversar sobre política com você, suas opiniões são muito burras..."
"Este tema de pesquisa não é demais para você, digo... não acha que além..."
"Você não sabe trabalhar"
"você sempre quer justificar suas falhas"
estas frases podem parecer comuns para uns ou pesadas para outros, uma mulher as escutou, na verdade diversas mulheres todos os dias...
As palavras se embaralham em meus pensamentos, 'seja forte' digo para mim, tentanto me acalmar neste momento em que carrego e formo minha segunda filha, aos sete meses de gestação. Mas até que ponto devemos mesmo ser fortes? Será que não é por aprender a não demonstrar essa fragilidade, a se levantar diante de todas as quedas que aceitamos também a não ser vistas, a não ser ouvidas, não receber apoio, ou demonstrar dor quando estamos sentindo dor física ou emocional?
Não lembro de minha mãe demonstrar estas dores, tento regastar memórias e não lembro de vê-la chorar ou reclamar, uma menina que começou a trabalhar como professora em casa, uma jovem menina negra que ao chegar a maioridade se tornou professora leiga em um prédio escolar e tinha que cuidar da casa, de duas meninas e do seu esposo.
Lembro de vê-la triste, mas nunca chorar, nunca reclamar, lembro do seu silêncio na correria do dia a dia, ela se vê em mim, já mencionou isso algumas vezes, não foi como um elogio, mas como preocupação.
E penso nisso quando vejo minhas filhas, penso que não as quero silenciando, calando suas dores, angústias, seus medos ou apenas escutem em silencio perplexo palavras como estas escritas no início do texto.
As pesquisas apontam que o sentimento de solidão durante uma gestação é um sentimento comum e complexo, e afeta até 40% das gestantes, mesmo acompanhadas. Resulta de intensas transformações físicas, hormonais e emocionais, além da pressão social de "felicidade plena". Muitas vezes, a mulher se sente sozinha nas responsabilidades e mudanças, necessitando de redes de apoio acolhedoras e sem julgamentos. A solidão resulta não apenas de fatores internos, ela nasce externamente a nós e está fora do nosso controle, é são apenas hormônios e mudanças físicas, é o que e como vivemos.
A idealização da maternidade faz com que muitas mulheres tenham medo de expressar dificuldades ou cansaço, temendo julgamentos, e quando hoje já somos forjadas a isso, nesse momento em que estamos sentindo cada mudança física, a solidão pesa ainda mais, e ainda precisamos ser mais fortes... Porque não devo esperar por aquilo que já me fizeram acreditar que não virá.
O fato é que escrever ajudar a expulgar essas palavras que ficam indo e vindo na minha mente, me obrigando a ressigificar, ser resiliente, adaptável, ser alguém que perdoar sem ouvir palavras de arrependimento ou perdão.
Cansada de vivenciar o mito da mulher forte, guerreira ou inabalável, quando sei que tudo o que preciso nesse momento é descansar, respirar com mais leveza para sorrir com maior fidelidade, essa autosuficiência que foi construída pelas gerações, mas que realmente calcar-me nela para não desmoronar poderá me levar a exaustão ou superação, em uma sobrecarga, mas não confio apenas em mim para carregar o 'meu' mundo, tenho colocado real descanso em uma fé para continuar.
Enquanto isso opera em silêncio, o mundo espera de nós que gerenciemos carreira, casa e família simultaneamente, sem demonstrar cansaço, sem chegar a uma síndrome de burnout.
No momento só espero não cair em minhas próprias armadilhas, ao rejeitar a fragilidade e não expressar minhas dores, por isso precisava escrever, colocar em palavras aquilo que fui treinada em não dizer.
"E não sou eu uma mulher?" (Sojourner Truth)
Escrever regenera minha vitalidade física, emocional e espiritual, a escrita me obriga a refeltir sobre o que sinto e penso, colocando ordenamento em pensamentos e palavras que vagueim em completo caos.
A escrtia amortece a autonegligência, traz a luz consciência e de uma forma poderosa quebra com o silêncio que fisicamente ainda amordaça meus lábios. A escrita contribui para a ressignificação de uma realidade concreta, é minha "terapêuta".
"Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta." (Glória Anzaldua)
Sou obrigada a escrever para não perder minha própria lucidez, para que minhas filhas não se calem, não silenciem, para catar os cacos que restam, colar um por um e reconstruir aquilo que me faz ser gente e continuar a um passo de cada vez, porque o mundo que crio aqui faz sentido, traz o acalanto, o abraço, os olhares e beijos que no mundo real não tenho recebido. Escrevo para reescrever o que foi dito sobre mim, não sou 'burra', não sou incapaz, menos inteligente, improdutiva, ou qualquer coisa que seja, sou um pessoa com potencialidades e limitações como qualquer outra, mas sobretudo sou alguém que merece respeito, escrevo para lançar mão da minha raiva, para abrir minha mente sobre o que vivo e sinto e abrir meu coração da loucura que quer invadí-lo e tirar minha coragem, escrevo para isso també, forçar a continuar a ter coragem, mesmo diante das advertências cotnrárias. Escrevo para enxergar novamente quem sou, perceber-me como mulher, não ser "levada" a ver-me pleo olhar do outro, me exilo na escrita e refugio-me nela, pois é ela quem espelha aquilo que quero ser e reflete a imagem de quem realmente sou. A vida passa até mais lenta e leve quando estamos prestes a finalizar este encontro de si por meio da escrita, tentem também, escrevam. Isso é que é força.



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